quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

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Resenha: 3% – 1ª temporada

3% - Netflix

Gostei muito do que vi em 3%. É tudo muito bem feito, tão bem feito que faz você ter sentimentos pelos personagens, sejam eles bons ou ruins, logo no primeiro episódio. Em relação ao episódio piloto que está disponível no YouTube (resenha dele aqui), o piloto da Netflix traz a mesma história, mas mais expandida. Enquanto o piloto da websérie se concentrava apenas no Processo, o piloto da Netflix estabelece um passado para os personagens, cria relação entre eles, cria situações que mostram mais quem é cada um.

A fotografia é bonita, tanto no lado pobre (chamado de “Lado de cá”) quanto no prédio onde é feito o Processo. Esse prédio é como imaginamos, o jeito clássico de toda ficção científica: branco e grande, para demonstrar grandiosidade e poder. Mas as tecnologias são originais, como a identidade da pessoa ser uma espécie de chip que fica na orelha, chamada de Registro, e também pela marca do braço, que é o símbolo da purificação. Aliás, com essa marca, também se criou um novo estilo, com a abertura da manga da camisa para que ela sempre fique à mostra. A tecnologia é algo que está presente e você vê isso, mas ao mesmo tempo é sutil, porque ela não faz questão de apresentar grandes naves, por exemplo, mas sim pequenas tecnologias, que não existem hoje no nosso mundo, e que nos mostram que essa é uma ficção científica e que se passa no futuro.

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Sobre a originalidade das tecnologias, isso é algo que percebo que além de também exigir criatividade, foi um cuidado que tiveram para que não ficasse tão parecido quanto outras ficções científicas. Eles não queriam ser parecidos, queriam ter um estilo próprio. Um exemplo: talvez em outros filmes de ficção científica as pessoas possam se comunicar por meio de videoconferência numa tela ou por meio de hologramas. No caso de 3% existe uma videoconferência, mas que é feita através de uma mesa de vidro. E ela mostra tanto a parte da frente da pessoa, quando a de traz. Isso mostra um cuidado com os detalhes e com o conceito de tudo.

Achei tudo muito original, desde a história da seleção, das provas, até à escolha das tecnologias. Sobre a história e as provas, é uma história com criatividade, e que não foi feita por ninguém antes, por isso sua originalidade. Talvez ele só não seja tão original na parte da tentativa da Causa de querer fazer uma revolução contra o sistema, e ainda mais com uma personagem jovem no papel principal. Mas essa é uma característica já marcante de filmes que se baseiam em livros juvenis de distopias, e mesmo assim nenhum deles consegue ser bem sucedido no desenvolvimento da sua história, com exceção de Jogos Vorazes. E 3% também foi bem desenvolvido nesse sentido. Saber que essa é uma história original brasileira, que foi bem feita e desenvolvida, e ainda mais na Netflix é algo que me enche de orgulho.

Outra coisa que gostei é que essa é uma série de verdade. Ela tem formato de série, que é o formato americano, e isso é algo que eu sempre quis ver numa produção brasileira, mas nunca vi, porque as nossas emissoras lançam séries como mini novelas que duram algumas semanas (ou apenas uma) com exibições diárias, e com cortes no final que é igual ao corte do fim de capítulo de uma novela. Finalmente temos uma série brasileira de verdade, e ela ficou muito boa. Fico imaginando que se ela tivesse sido feita por uma emissora de TV aberta ou fechada, o resultado seria bem diferente. O fato de estar na Netflix proporciona ao criador, que aqui também roteiriza os episódios, e aos diretores, uma liberdade que eles não teriam na TV, por não precisar se preocupar em criar um final marcante para cada final de episódio, e nem se preocupar por precisar deixar a história um pouco mais lenta para desenvolver bem os personagens.

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Os personagens, aliás, são bem desenvolvidos. É legal ir acompanhando eles e ir mudando a nossa forma de pensar sobre cada um. À medida que vamos conhecendo melhor cada um vamos criando novas impressões e opiniões. Às vezes o personagem se mostra tão diferente do que pensávamos antes, que nos surpreendemos. Os arcos dos personagens dão reviravoltas que não esperamos e agitam a série. Os personagens principais ainda têm flashbacks, que nos faz conhecê-los melhor. Tem um flashback em específico, que é o de Ezequiel, que dura um episódio inteiro e foge do tom da série. O flashback é todo dramático (mas não exagerado), diferente do tom da série, que tem ação e uma dose de suspense, mas mesmo assim ficou bom, mostrando a flexibilidade dos envolvidos em trabalhar com gêneros diferentes.

As provas são incríveis, e foram todas muito bem pensadas. Mais uma vez, foi necessário muita criatividade. Não tenho outra coisa mais para dizer sobre criatividade a não ser parabenizar Pedro Aguilera, criador e roteirista da série. Eu só espero que ninguém invente de querer usar alguma daquelas provas para uma seleção real de alguma coisa, como de emprego, por exemplo, porque seria horrível de difícil. rs

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Acho que a única coisa que a série peca é nas atuações. Eles fizeram bem em escolher atores não conhecidos, porque sai mais barato, apresenta novas caras ao público, e não centraliza tudo só em atores globais (que já são muito o centro das atenções). Mas também poderiam ter escolhido melhor. As atuações são bem fracas, e quase sempre soam artificiais. Alguns atores conseguem fazer um trabalho melhor, mas que não chega a ser excepcional. Outros estão bem ruins. Mas se você ignorar isso e se concentrar só na história dá para aproveitar, até porque não adianta ter atores bons e famosos se a série em si não é boa. Para mim 3% é melhor que muita coisa da televisão por aí, inclusive da Globo. A Globo pode ter atores famosos e queridos do público, mas não conseguiu fazer uma série de verdade, e nem algo tão bom e original quanto 3%. Para mim a história é o que importa, a série em si. Claro que seria bom ter atores melhores (mas não necessariamente famosos), mas o que quero dizer é que você não deve criticar 3% e chamá-la de ruim só por causa das suas atuações, porque se atuações boas fizessem bons produtos, só teríamos coisas boas na TV, e até mesmo no cinema (quantas vezes não vimos filmes ruins com ótimos atores, que terminam sendo desperdiçados?).

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3% é ótimo, gostei muito. A crítica internacional, de um modo geral, parece ter gostado mais do que a crítica nacional, como você pode ver aqui e aqui. O conceito da série é realmente muito bom, e dá para se surpreender. No final ele ainda deixa pontas para a 2ª temporada, que já foi confirmada pela Netflix. Finalmente veremos o Maralto (ou “o lado de lá”, como é chamado informalmente pelos personagens), e espero que caprichem no visual. Levando em conta o visual dessa temporada, acho que não vamos nos decepcionar. E além de conhecer novos personagens, vamos ver o que acontecerá com os atuais, e quais serão os seus destinos. A 1ª temporada foi só o começo, só a apresentação da história, focada apenas no Processo. O desenvolvimento mesmo ainda começará.

Nota: