sábado, 3 de dezembro de 2016

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Resenha: The Crown – 1ª temporada

The Crown - 1ª temporada - Netflix

The Crown mostra como é o dia a dia da família real da Inglaterra, e a relação da Rainha Elizabeth II com sua família, com o primeiro-ministro Winston Churchill e com o governo. A série mostra que a vida da família real não é cheia de privilégios e facilidades, como pensamos. Eles têm sim tratamento especial, mas que pode ser para o bem ou para o mal. Talvez a pessoa não queira ter aquele tratamento e queria apenas ser uma pessoa normal, ou se mostrar como uma pessoa normal.

Tudo isso é retratado nessa série. Nela é mostrado que a coroa pode ser um fardo, porque traz várias obrigações ao monarca. Ela agora tem que agir e se comportar de determinada maneira. Qualquer coisa dita errada, qualquer deslize já é motivo para virar manchete de jornal, que fará questionamentos ao governo e à rainha, e isso termina desestabilizando o país.

Também é mostrado como os poderes do monarca da Inglaterra são limitados. A rainha não pode sugerir nada, e não pode querer fazer nada. Quem realmente governa e manda no país é o primeiro-ministro. Até mesmos decisões da vida pessoal da família têm que ser aprovadas pelo Gabinete, como no caso de Philip, o marido de Elizabeth, que queria aprender a voar e fazer manobras. A rainha não pode nem se quer escolher quem será o seu secretário pessoal, porque isso feriria a organização do palácio. A série mostra que quando se trata da coroa, mais valem os costumes e a tradição do que a vontade pessoal da rainha. Nada pode ser mudado, nada pode ser modernizado. Não existe liberdade para isso. A reunião semanal com o primeiro-ministro, onde ele deve se aconselhar com a rainha, na verdade não acontece bem assim. É uma reunião mais para informar a rainha das coisas que estão acontecendo e lhe manter atualizada. Churchill apenas fala e nunca pede conselhos. E Elizabeth também não dá, porque não tem efeito.

A pessoa que é a herdeira da coroa e depois de torna rei ou rainha não terá uma vida de privilégios e luxos. Na verdade terá uma vida cheia de obrigações que lhe serão impostas, sem lhe dar liberdade nem de questionar. A decisão já foi tomada pelo primeiro-ministro, pelo Gabinete ou pelo Parlamento, e à rainha resta apenas o dever de cumprir essas obrigações. Até os conselheiros e o secretário pessoal da rainha, como no caso de Tommy, conseguem ter mais voz ativa para tomar uma decisão do que a própria monarca. Ela é meramente uma figura, uma representante de todo o sistema.

The Crown

Também é mostrado na série como a coroa afeta as relações pessoais de Elizabeth. Antes ela era feliz no seu casamento e era mais próxima dos filhos. Depois que virou rainha, se afastou dos filhos. Só os vê de longe se divertindo, mas não chega perto deles. Quem faz isso, mas ainda não muito, é Philip. Agora ela viaja por meses e deixa os filhos sozinhos com as babás. Na verdade seus filhos não foram criados por ela e sim pelas babás. A série mostra pouquíssimos momentos em que Elizabeth esteve com seus filhos. Ela parecia ser uma mãe distante, de tanto ter que cumprir as suas tarefas reais. O casamento também foi prejudicado. Philip perde o seu emprego na Marinha, não pode morar na casa que ele escolheu para morar e que pagou caro para reformar e deixar do seu jeito, não pode ajudar Elizabeth em suas atividades, e não pode fazer nada sem a autorização do governo. Ele perdeu sua liberdade de viver e sua esposa, porque até em vários momentos Elizabeth se impõe a ele como rainha (gostaria de saber até que ponto isso realmente aconteceu). Philip é irritante às vezes, ele poderia ser mais compreensivo e aceitar melhor as coisas. Ele sabia que estava casando com a herdeira da coroa, e que aquele era o futuro que lhe esperava, mas mesmo assim ele aceitou. Ele sabia disso, até porque ele era um príncipe em seu país. Acho que ele esperava que mesmo se casando com a herdeira da coroa, ele ainda continuaria sendo o “homem da casa”, mandando e decidindo tudo, mas na verdade, sempre quem decide tudo é a rainha, e a vontade dela é a que prevalece. Em um dos episódios ele faz uma crítica sobre eles serem apenas figuras fantasiadas que têm que sorrir e acenar para o povo, o que é a mais pura verdade. Ele se sente inútil, porque além de não poder fazer nada, o que faz é acompanhar sua esposa também como uma mera figura. Mas ao mesmo tempo que eu entendo o lado dele, porque todo o seu sentimento e pensamento é verdadeiro em relação à monarquia britânica, também lhe acho chato, porque como disse, ele devia saber o que lhe esperava nesse casamento, e devia se acostumar a isso.

SPOILER: Outra relação que é posta em xeque é o de Elizabeth com sua irmã mais nova Margaret. No início eu achava que iria ter uma rivalidade entre as duas, mas na verdade não teve. Isso estava muito bem resolvido: Elizabeth é a herdeira da coroa e Margaret aceitava isso. Ela lhe respeitou e ficou feliz por sua irmã. Os atritos começaram quando seu namorado foi tirado de si por decisão de Elizabeth. Mais uma vez Elizabeth não pôde tomar a decisão que queria. Ela queria ajudar sua irmã, mas tinha pressão por todos os lados para que ela separasse Peter de Margaret, e ela terminou cedendo. Depois são revelados todos os sentimentos que as duas sentem uma pela outra: Margaret tem inveja de Elizabeth por ela ser a rainha. Ela queria estar no seu lugar e aparecer, fazer as coisas do seu jeito, porque é disso o que ela gosta. Já Elizabeth tem inveja do desempenho da sua irmã perante o público. Elizabeth não gosta de se apresentar, mas faz isso porque é um dos papéis do seu cargo. Como ela é pressionada por todos os lados e as coisas já vem prontas para ela, a sua postura é de muita neutralidade, que é até a postura que o governo e o povo espera que ela tenha. O seu medo não é só a de que Margaret faça ou fale alguma besteira, mas também a de que ela apareça mais do que a rainha, e de que ganhe notoriedade com isso. Elizabeth diz que não gosta de aparecer, mas a verdade é que gosta sim, porque ficou incomodada com Margaret e Peter aparecendo mais que ela, sendo que o povo e a imprensa tinham até aprovado o namoro dos dois. Elizabeth tem medo das duas coisas: do que esse comportamento da sua irmã pode causar e de como isso pode lhe apagar facilmente. Elizabeth começa seu reinado com medo e assustada por tantas pessoas se curvarem diante de si, mas aos poucos vai se acostumando e aceitando tudo, a chegar ao ponto de não querer que ninguém lhe ofusque (e isso foi tratado mais de uma vez na série). Acho que isso deve mostrar que o poder da sua posição lhe subiu à cabeça.

The Crown - 1ª temporada - Netflix - Margaret

Acredito que se Margaret fosse a herdeira do trono, seria ruim para a Inglaterra. Apesar do seu jeito moderno, ela terminou envolvida em polêmicas com suas declarações. Ela seria difícil de controlar, seria uma missão que irritaria Churchill e o governo. Se Churchill já se irritava com Elizabeth no começo, imagine então com Margaret? Poderia até colocar a monarquia em risco.

Falando em Churchill, ele também foi muito bem desenvolvido na série. Ele foi um homem respeitado pelas coisas que fez na Inglaterra, mas também muito orgulhoso. Não aceitava perder, e não queria deixar seu cargo, mesmo já sendo velho e ficando sem condições físicas e de saúde para permanecer. Ele não aceitava a sua velhice, e nem aceitava que estava na hora de parar. O episódio 9, que fala do seu quadro e do seu aniversário de 80 anos, mostra bem isso (aliás, esse episódio é um dos melhores episódios da temporada). Apesar de ser um homem inteligente e estrategista, que rendeu conquistas para o seu país, ele era grosso e ríspido. Ele tinha sido um grande homem e agora começava a ver a sua decadência por conta da sua idade, mas não queria aceitar. Queria ser o mesmo de antes.

The Crown - 1ª temporada - Netflix - Churchill

A série também mostra rapidamente o drama da Rainha-mãe, a mãe de Elizabeth. É interessante porque no meio de tantas coisas que aconteceram com Elizabeth na sua vida pessoal e na sua relação com o governo, ninguém nunca se pergunta como fica a mãe dela numa situação dessas. É triste a cena que ela fala sobre isso.

A série dá destaque a vários personagens e lhes desenvolvem bem. Todas as atuações são ótimas, especialmente a de Claire Foy, que faz Elizabeth, e John Lithgow, que faz Winston Churchill. John Lithgow consegue roubar a cena muitas vezes. Por se tratar do primeiro-ministro ele é um dos personagens mais importantes da série, e sua personalidade forte, junto com a história que é apresentada na série contribui ainda mais para o seu destaque.

Os cenários são muito bonitos e realistas. O figurino também está ótimo. Não poderia deixar de citar a fotografia, que também é belíssima.

A abertura é simples, mas sublime e com ar de glorioso. A trilha que lhe acompanha é boa e grandiosa no momento certo, combinando com a aparição da coroa.

The Crown - 1ª temporada - Netflix (4)

The Crown é uma série de muitas qualidades. Não sabemos até que ponto as coisas que são contadas na série realmente aconteceram, já que essa é uma obra de ficção, mesmo que baseada em eventos reais. Os diálogos, por exemplo, foram todos criados para a série. Resta saber se o comportamento das pessoas eram aqueles mesmo, e se os seus sentimentos em relação a tudo o que acontecia também eram aqueles que são mostrados na série. Em momento nenhum a série fala que é baseada em alguma biografia ou livro sobre a monarquia, mas com certeza nada ali foi escrito aleatoriamente. Pode ter uma coisa ou outra que foi acrescentada para que ficasse bem no formato da série (como a personagem Vanetia Scott, secretária de Churchill, entre outras coisas), e com certeza os diálogos dos personagens não foram exatamente aquelas, se é que elas chegaram a existir na vida real. Mas mesmo assim a série cumpre com seu propósito de mostrar o dia a dia da rainha e sua família, e do governo. Essa parte é a mais real, e podemos acreditar de que de um modo geral as coisas aconteceram daquele jeito. A série nos dá uma ideia de como tudo funciona, e nos faz ter uma imersão nesse mundo, na qual, até nós que não somos da Inglaterra temos tanta curiosidade de saber como funciona internamente, de como age a rainha e de como é a sua relação pessoal com sua família.

The Crown é ótima, e espero que tenha diversas temporadas, contando todas as histórias do reinado da Rainha Elizabeth II, até que chegue aos dias atuais, com Elizabeth já velha. Claro que não quero que isso aconteça rápido, e sim ao longo das temporadas e dos anos. Essa tem que ser uma série tão longa quanto está sendo o reinado de Elizabeth II, para que dê tempo de contar todas as principais histórias que aconteceram nesse período, com seus problemas e dilemas, assim como foi nessa temporada. São histórias muito interessantes de acompanhar. Por enquanto o plano é de 6 temporadas, com cada temporada contando histórias dentro de um espaço de 10 anos. Se for assim, vai ser bom. E essa é mais uma ótima série da Netflix.

Nota: