segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

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Resenha: Capitão Fantástico

Capitão Fantástico - Pôster nacionalTítulo Original: Captain Fantastic

Título Nacional: Capitão Fantástico

Direção: Matt Ross

Gênero: Drama

Duração: 1h58min

Estreia: 22 de dezembro de 2016

 

 

 

 

 

Frases de destaque: “Se você admite que não há esperança, então você garante que não haverá esperança. Se você admite que há um instinto para a liberdade, que existem oportunidades de mudar as coisas, então há a possibilidade de que possa contribuir para a construção de um mundo melhor." (Noam Chomsky)

"Somos definidos por nossas ações, não palavras".

Atenção: esta resenha contém spoilers!

Gostei de Capitão Fantástico. É um filme com um ótimo visual, tanto na fotografia quanto nos figurinos. As atuações também são ótimas. Todos os personagens passam por situações de tristeza e alegria, a alguns, de raiva, e as atuações são sempre convincentes. As músicas e a trilha sonora escolhidos por Alex Somers também foram ótimos para dar o clima certo ao filme.

Só não gostei de uma cena de nu frontal que tem no filme. Dado o contexto do filme, não diria que foi uma apelação, mas foi algo totalmente desnecessário. Não gostei por terem feito essa cena, até porque poderiam ter cortado e filmado apenas da cintura para cima. Não gosto de cenas assim, não existe motivo para fazê-las. Me deu agonia quando vi.

Falando da história, ela é ótima. Uma história leve, com um roteiro bem escrito, que apresenta problemas aos personagens e resolve-os de modo convincente, sem abusar de clichês. É uma história que traz reviravoltas à vida dos personagens, que não são feitos de modo brusco ou acelerado, e sim de modo bem desenvolvido.

O filme mostra que a ideia dos hippies dos anos 60 e das pessoas que querem viver fora do sistema, com um estilo de vida simples e diferente de tudo, pode não funcionar, porque é um extremo que implica uma série de perdas do mundo lá fora. E por mais que a família ou a comunidade se sinta feliz lá, sempre vai ter uma coisa ou outra que você não sabe, e sempre vai ter uma coisa ou outra que você quer, mas que não poderá conseguir com o seu estilo de vida. O simples é bom porque nos faz pensar o quanto ligamos para coisas inúteis, e que não precisamos de verdade. Apenas somos estimulados por um consumismo sem fim do mundo capitalista. Às vezes menos é mais. Mas o simples exagerado é restritivo. Essas questões são muito bem mostradas no personagem Bo. Ele não sabe como se relacionar com uma menina, porque nunca esteve num mundo onde circular e conversar com outras pessoas que não sejam da sua família fosse normal. Ele sabe tudo sobre ciência e música, mas se perde em conversas com alguém de fora porque nem sequer sabe o que é um programa de TV. E o que ele quer do mundo lá fora que não conseguiria com o seu estilo de vida é entrar numa universidade. E quando alguém fica doente ou se acidenta, não tem outro jeito, a não ser recorrer a um hospital que o mundo oferece.

Além das restrições e falta de opções, esse estilo de vida simples é perigoso, e é por isso que no final do filme vemos a família num estilo de vida um pouco diferente. Agora eles vivem numa fazenda, criam animais e cultivam plantas. Dessa forma dá para manter aquele estilo de vida simples e longe das grandes metrópoles que estimulam o consumismo, mas ao mesmo tempo ninguém se isolará do mundo, porque com o estilo de vida de fazendeiros eles poderão comer comidas comuns (sem precisar caçar), ir à escola, vestir roupas comuns, e também conhecer o mundo, suas regras sociais e seu estilo de vida. Eles estarão perto da natureza e dos animais, mas ao mesmo tempo estarão dentro do mundo e terão acesso a tudo de bom o que ele tem a oferecer. É como eu disse: um estilo de vida simples é bom, e até admirável, mas o simples exagerado é restritivo, e isso causa problemas.

O filme também fala em até que ponto os pais podem chegar para dar aos seus filhos uma educação e um estilo de vida que consideram os ideais. A intenção dos pais é sempre boa, claro, mas é necessário que eles ponderem sobre as vantagens e desvantagens de tudo para não exagerar e privar os seus filhos de terem oportunidades e experiências que também poderiam lhes beneficiar de alguma maneira. O filho também tem que estar disposto a aceitar tudo aquilo, a querer aquilo, senão não funciona. É o caso do personagem Rellian, que desde o começo do filme é mostrado como o rebelde, que não aceita muito bem as coisas. Ele tem raiva do seu pai principalmente por ele não ter dado a ajuda necessária a sua mãe quando ela precisava, e por ter isolado todos numa mata, mas era visível o desconforto dele com toda a rotina e com todas as ordens da família. As outras crianças poderiam saber tudo sobre os mais variados assuntos, mas viviam à margem da sociedade. A sua maioria gostava daquele estilo de vida, mas Rellian, e em algum momento, também Bo, demonstraram descontentamento. No caso de Bo, ele disse que não sabia de nada além do que dizia em livros, e ele se sentia prejudicado por isso. Ben, o pai, percebeu isso, talvez um pouco tarde demais para alguns filhos, mas ainda a tempo para os menores, e mudou. Ele diz que tudo foi um engano. A teoria da vida hippie e isolada do mundo pode ser bonita, mas na prática não funciona (deve ser por isso que o movimento hippie caiu tanto que nem ouvimos mais falar). É por isso que ele disse: “foi um lindo engano”. Lindo, porque é um estilo de vida que na sua visão era a ideal e eles foram felizes daquele jeito durante muitos anos, mas que no fim ele percebeu o quanto estava prejudicando os seus filhos e os colocando em perigo. Em resumo, a mensagem aqui é: nem sempre o que você pensa o que é melhor para os seus filhos realmente é. Tudo tem que ser analisado, tem que ser levantado os pós e os contras, tem que pensar na personalidade do filho para ver se ele se adaptaria, e principalmente se ele vai querer o que você quer para eles.

Além de ter qualidades técnicas, como as faladas aqui, e o ótimo roteiro e direção de Matt Ross, Capitão Fantástico deixa mensagens. Deixa críticas ao modelo de vida consumista, mas ao mesmo tempo critica o modelo de vida exageradamente simples. Ele ainda fala sobre a responsabilidade dos pais na criação dos filhos, e como as suas escolhas influenciarão na formação dos seus filhos, tanto no lado da educação formal, quanto no lado ideológico. O filme mostra que exageros e extremos nunca são bons.

Nota: