quarta-feira, 15 de março de 2017

Categorias:

Resenha: O Lar das Crianças Peculiares

O Lar das Crianças Peculiares - Pôster nacionalTítulo Original: Miss Peregrine's Home For Peculiar Children

Título Nacional: O Lar das Crianças Peculiares

Direção: Tim Burton

Gênero: Aventura, fantasia

Duração: 2h03min

Estreia: 29 de setembro de 2016

 

 

 

 

 

Atenção: esta resenha contém spoilers!

O Lar das Crianças Peculiares, adaptação do livro O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, começa sendo fiel ao livro. Uma pequena mudança aqui e ali, mas ainda fiel. Mesmo assim, desde o seu início eu lhe senti rápido demais. A parte da vida chata de Jacob não foi explorada tão bem, e isso é algo importante para os 3 livros, porque Jacob sempre fica comparando a sua antiga vida chata dentro de uma rotina com sua nova vida, que é cheia de riscos e aventuras. Da mesma forma, a relação de Jacob com seu avô também é muito rápida, não dando para o espectador entender a forte conexão entre Abe e Jacob, como acontece no livro.

Tudo acontece rápido, e de repente Jacob já está conhecendo o orfanato e as crianças peculiares. É a partir daí que começam as decepções com o filme: quando você vê que Jacob já está com os peculiares, se dá conta de que não existe nenhuma tensão no filme. No livro, Jacob passa um bom tempo explorando a casa velha, e a narrativa do livro conta isso com muita tensão. O filme poderia aproveitar não só essa parte, mas também a história do livro inteiro para fazer um bom suspense. A trilogia de livros das crianças peculiares é um universo gigantesco e cheio de detalhes que poderia ser bem explorado e muito bem trabalhado no cinema. O visual do filme é bom? Sim, ele é ótimo, mas não é só de visual que um filme vive. E é decepção em cima de decepção. Transformaram Emma em Olive, e Olive em Emma. O poder de Emma, que é ter chamas, que é algo tão forte e presente no livro ficou com Olive, que usa tão pouco. E Emma é só uma menina que levita e sopra, com sua personalidade estando mais para uma menina doce e educada do que para a menina forte e brava dos livros. Emma e Olive não foram as únicas personagens a serem descaracterizadas no filme. Eles ainda transformaram personagens crianças e pré-adolescentes em adolescentes, e adolescentes em crianças. Qual era o objetivo disso? Para mim não ficou claro.

Depois disso, o ritmo alto da história continua. Assim que o perigo chega Jacob se torna o líder natural do grupo. Ele tem as ideias, a bravura e diz a todo mundo o que fazer. Exatamente o oposto do livro, onde Jacob tem medo de tudo porque o mundo peculiar é novo para ele, e ele ainda está descobrindo. No livro as principais decisões são tomadas por Emma, onde Jacob se apoia e recebe apoio, mas os outros também são bem participativos. Não tem essa de ter um líder do grupo que deixa os outros mais fracos.

E para completar, todo o resto do filme é movido de clichês. Tudo se resolve muito facilmente e os personagens quase não têm esforço para nada. É uma decepção enorme ver um filme que poderia ter sido ótimo se trabalhasse o lado obscuro de tudo, que é tão presente no primeiro livro, e que poderia dar um ótimo suspense. Aquela cena da luta final onde as caveiras lutam contra os etéreos soa bobo e fácil.

No terceiro ato o filme muda completamente a direção do livro, dando uma conclusão à história, mas ao mesmo tempo acabando com uma cena cortada, o que não me fez muito sentido. É como se o diretor, Tim Burton, quisesse acabar a história do filme sem correr o risco de deixar uma ponta e não existir uma sequência, mas ao mesmo tempo deixasse alguma coisa ali para o caso de uma sequência acontecer. Tudo bem que na época em que o filme foi feito só o primeiro livro tinha sido publicado, mas no livro fica claro que a história teria continuação, e se o filme fosse feito de forma organizada e com respeito à obra de Ransom Riggs, eles perguntariam a ele o que aconteceria nos próximos livros para se guiarem melhor na produção do filme. Isso aconteceu na produção de Game of Thrones, onde as duas últimas temporadas da série serão feitas antes dos livros serem publicados. Então R.R. Martin disse o fim que cada personagem deveria ter para que os produtores pudessem se guiar, mudando só a forma que eles farão para os personagens chegarem àquele fim, ou seja, o livro e a série trarão o mesmo fim para os personagens, o que mudará entre eles é só o caminho para chegarem lá. Infelizmente nesse filme não houve esse interesse e cuidado.

Se vai ter outro filme ou não, ninguém sabe, mas sinceramente, é melhor que não seja feito outro, porque se for para fazer mais filmes como esse é melhor que eles nem aconteçam.

É uma pena os atores escolhidos para esse filme, que são bons, como Asa Butterfield e Eva Green, mas que foram desperdiçados pelo roteiro clichê e direção ruim. Quem ainda consegue se destacar mais é Samuel L. Jackson como o vilão do filme, mas ainda assim longe do que poderia ter sido, dado o potencial dos livros (aliás, esse vilão não existe nos livros, ele foi apenas levemente inspirado no vilão original).

Bem, essa resenha toda foi falando da minha decepção com o filme em relação ao livro, mas analisando ele como filme em si não chega a ser tão ruim assim. Ele ainda é muito clichê, tem problemas com um ritmo muito acelerado e com tudo se resolvendo muito rápido, mas também não é um filme péssimo. É um filme para se divertir e que deve agradar até as crianças maiores, já que não é muito pesado. Ele tem algumas cenas monstruosas e macabras, mas ao mesmo tempo tudo é retratado de uma maneira leve. Dá para passar o tempo com ele.

Mas agora só um adendo: vi algumas críticas por aí dizendo que esse é um ótimo filme de Tim Burton, o melhor desde tal época, e outros ainda elogiando a sua criatividade para a criação dessas crianças peculiares e dos seres. Claro, todo o visual está incrível, e acho até uma pena ele ter sido desperdiçado num filme com clima tão diferente dos livros, mas vale lembrar que nada disso foi criação de Tim Burton. Todos os conceitos e todo esse universo das crianças peculiares vieram de Ransom Riggs, autor dos livros. Inclusive, nos livros tem muitas fotos para ajudar o leitor a imaginar os personagens e as situações.

Leia também:

Nota: