segunda-feira, 5 de junho de 2017

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Resenha: 13 Reasons Why – 1ª temporada

13 Reasons Why - 1ª temporada

13 Reasons Why ficou conhecida como a série produzida por Selena Gomez, e daí veio o grande chamariz da série. Quando soube que essa seria uma série baseada num livro, logo tratei de lê-lo, para que soubesse qual era a visão do autor do livro, já que as adaptações sempre mudam algo, ou para pior ou para melhor, e também porque eu sempre prefiro ler o livro antes de ver a sua adaptação para filme ou série (salva poucas exceções). A minha resenha do livro você pode ler aqui:

Inicialmente achei que o livro seria melhor adaptado para um filme do que para uma série, porque teriam que inventar muitas coisas para encher os episódios. Mas me surpreendi. Logo de cara achei a série muito fiel ao livro, mesmo mudando algumas coisas, que são normais por se tratar de uma série, mas conseguindo se manter fiel ao livro e com uma ótima qualidade de produção.

Os atores são ótimos. De primeira você já gosta das atuações de Hannah (Katherine Langford) e Clay (Dylan Minnette). Sobre os personagens em si eu fui mudando de opinião ao longo da série, porque eles tiveram mudanças de comportamento em relação ao livro que os fizeram não serem tão autênticos assim. Vamos começar com Tony, que desde o começo segue Clay indiscretamente, sendo bem inconveniente. Para se acostumar com ele demora um pouco. Você só se acostuma depois que ele prova ser um amigo verdadeiro para Clay e que demonstra estar sempre preocupado com ele, e que na verdade é Clay que não está no seu perfeito juízo.

13 Reasons Why - 1ª temporada (2)

Clay, por sua vez, ainda é o menino tímido do livro, mas não tanto assim. O Clay da série é mais corajoso e não tem medo de falar com ninguém, mesmo que saiba que está correndo perigo. No livro, Clay mal falava com Hannah, enquanto o Clay da série tem uma amizade com ela (que ficou bom, convenhamos). Mas o que esse Clay da série é mesmo, é um tremendo chato. Ele é julgador, quer tirar satisfação com todo mundo, culpar todo mundo, como se ele tivesse acima de todos e fosse o único que não tivesse culpa de nada só porque era apaixonado por Hannah. Ele sabia que estava nas fitas, ele sabia que era um dos culpados, mas mesmo assim agia como se todos fossem culpados, menos ele. Sério, Clay é muito chato. Teve um momento que eu já não aguentava mais ele com seus surtos e essa sua posição de querer tirar satisfação com todo mundo, fora as constantes brigas com Tony. Aliás, coitado de Tony, que suportou isso. Outra coisa que não gostei no personagem é que ele demorava muito para ouvir as fitas. Enquanto o Clay do livro fica ansioso para ouvir a sua fita logo, e por isso ouve todas as fitas numa noite só, como qualquer pessoa faria, o Clay da série fica enrolando e é a pessoa que mais demora a ouvir tudo. É claro que a série tinha que fazer algo desse tipo, para que fosse possível transformar um livro numa série de 13 episódios, mas ficou bem enrolado. Dava vontade de gritar com ele dizendo para ele ouvir aquilo de uma vez por todas. Outra diferença é que o Clay do livro é mais bonzinho. Enquanto no livro ele dizia "eu não quero acreditar" em relação aos boatos, na série ele meio que acredita nos boatos e participa deles, inclusive decepcionando Hannah uma vez. O Clay do livro não é vingativo e não faria mal a ninguém, mas o da série tira uma foto de Tyler trocando de roupa e repassa para todo mundo como forma de vingar Hannah. Ele acha ruim o bullying que cometeram com Hannah, mas continua essa cadeia, praticando ele mesmo o bullying com outra pessoa. E quando a sua mãe lhe perguntava alguma coisa sobre Hannah, quando ele tinha a chance de que a verdadeira justiça fosse feita, simplesmente se omitiu.

Hannah é muito bem interpretada por Katherine Langford, mas teve uma coisa na construção da personagem que me incomodou, que é que nos primeiros episódios, mesmo depois das coisas ruins que aconteceram na sua vida, que fazem parte dos porquês, ela sempre voltava no próximo episódio sorridente e feliz, como se aquilo que tivesse acontecido no episódio anterior tivesse lhe afetado só momentaneamente, mas depois ela já tinha voltado ao normal. Isso termina tirando o peso dos “13 Porquês”. Só a partir do episódio 6 é que os porquês começam a ficar mais pesados e aí sim podemos ver o começo da degradação de Hannah, que se inicia aos poucos até chegar ao último episódio, onde ela não aguenta mais. Só a partir do episódio 7 é que percebemos uma Hannah mais triste e depressiva, depois dos acontecimentos do episódio 6, porque até então, ela sofria mas depois estava bem de novo.

13 Reasons Why - 1ª temporada (3)

As montagens das cenas entre o passado e presente são bem feitas e bem sutis, e dá para ver a diferença nas cores dos cenários e das roupas. Nas cenas do presente é tudo cinzento, para reforçar o drama atual vivido por Clay e pela escola pelo suicídio de Hannah, enquanto as cenas do passado tem alguns tons mais coloridos e esverdeados, mostrando um mundo supostamente mais colorido, mas que não era tão diferente assim do atual, mas que vem naquelas cores porque remete à lembranças do passado, onde as coisas eram supostamente mais leves e normais.

A trilha sonora também é muito boa, isso você percebe desde o primeiro episódio.

Por se tratar de uma série, muitas coisas são mudadas em relação ao livro, e todos os personagens coadjuvantes são aprofundados. Eles vão além dos casos contados por Hannah nas gravações. Eles têm vida, família, relacionamentos, problemas. São personagens complexos. Isso foi algo legal que a série fez, para não estereotipar todo mundo como o pessoal do mal e a vítima. Mesmo criando muitas coisas que não estão presentes no livro, é incrível como ele ainda consegue se manter fiel. O ritmo da narrativa é bom (com exceção da demora de Clay ouvir as fitas e ficar perturbando todo mundo), e nada sai dos trilhos. Tudo anda conforme a identidade da história original. Para uma série, onde teoricamente as coisas seriam mais fáceis de desandar, porque daria liberdade de várias narrativas diferentes e distantes da história do livro, esta série está de parabéns. Muitos roteiristas e diretores não conseguem fazer uma adaptação de livro para filmes que seja realmente boa, e mesmo tendo cerca de 2 horas para contar a história de um livro, conseguem inventar coisas que não estão no livro e se distanciar totalmente dele, tirando até a sua identidade, como o caso do livro O Orfanato da Srta Peregrine Para Crianças Peculiares com o filme O Lar das Crianças Peculiares, só para citar um exemplo (porque tem vários). Esta série é um exemplo de que é possível fazer uma boa adaptação e ter liberdade criativa, mas desde que a essência do livro e os principais acontecimentos sejam mantidos. Por se tratar de uma série, que vai construindo e apresentando os personagens aos poucos, nós vamos criando vínculo com eles facilmente, e talvez isso mais ajude do que prejudique na nossa adaptação à forma que os personagens e a história estão sendo apresentados. Teve episódio que era bem distante do livro, mas todos os principais acontecimentos do capítulo do livro correspondente estavam lá, então isso é o que importa.

Outra liberdade criativa que deu certo foi a inserção dos pais de Clay e de Hannah, mas principalmente dos de Hannah, porque o livro não conta o que aconteceu com eles. Como eles são os pais dela, e isso é uma série, dando oportunidade para vários personagens se desenvolverem, é importante saber como eles reagiram ao suicídio da sua filha e como estão lidando com isso. Essa foi uma parte da história muito boa, porque a série mostra que não se trata só dos estudantes e da escola, e que não se trata só dos “porquês”, mas também do futuro desses personagens. A partir de agora eles ganharam vida própria e independente do livro, e é por isso que haverá uma segunda temporada. Acredito que ela será de qualidade, justamente porque conseguiu criar personagens complexos e bem desenvolvidos na primeira temporada, que deixou muitas pontas, dando para desenvolvê-los ainda mais na segunda temporada.

13 Reasons Why - 1ª temporada (4)

A cena de Hannah se matando é bem forte. Não existe trilha sonora de fundo nesse momento. Tudo fica parado, apenas mostrando ela colocando o fim na sua vida e mostrando a sua dor. As coisas começam a ficar mais fortes a partir do episódio 6, e a cada episódio que passa, as coisas vão ficando mais pesadas. No episódio 12 tem a cena mais forte de todas, e no 13 tem o suicídio, que supera todas as outras cenas.

Essa cena do suicídio foi polêmica, porque ela foi acusada (assim como o restante da série) de ter romantizado o suicídio, e por isso poderia estimular outras pessoas a cometerem suicídio também. Por outro lado, o número de pessoas que ligaram para o número de emergência de pessoas que querem cometer suicídio aumentou largamente depois da estreia da série. Eu vejo que 13 Reasons Why pode trazer tanto boas quanto más influências, dependendo de quem está assistindo. Eu recomendo que todos assistam, pais, professores, orientadores, coordenadores e diretores de escolas, para que possam entender mais o comportamento dos adolescentes e possam identificar sinais de que eles não estão bem, além, é claro, dos próprios adolescentes, que têm que entender que todas as suas palavras e atos podem prejudicar uma pessoa e podem fazê-la se sentir mal consigo mesma, mesmo que feito intencionalmente ou só de “brincadeira” (que geralmente só tem graça para quem faz). Mas para as pessoas que já têm sinais depressivos, mesmo que poucos, eu não recomendo assistir, porque essa série pode sim estimular o suicídio, ou afirmar ainda mais o desejo de quem já tem isso em mente.

Considerações feitas, posso concluir que 13 Reasons Why é uma ótima série. Ela tem um objetivo e cumpre esse objetivo. Ele tem um público definido e tem uma mensagem, que foi passada. O livro é mais conciso nisso e também passa essa mesma mensagem. A adaptação do livro foi muito boa, a série é muito fiel ao livro, apesar de todas as mudanças. Tem muita coisa aí para ser contada ainda, e por isso faz sentido uma segunda temporada.

Nota: